No Brasil, ser LGBTQIAPN+ já é um risco. E quando vivemos uma crise climática, como foi com as enchentes no Sul do Brasil, quem está nas margens é quem mais sofre. Pessoas trans, negras e periféricas enfrentam não apenas a falta de abrigo, mas também a negação da própria existência nos sistemas governamentais que, em tese, deveriam nos proteger.
O 17 de maio marca o Dia Internacional contra a LGBTfobia, mas é preciso olhar para todos os lados, como as mudanças climáticas, por exemplo, que multiplicam as violências contra a nossa comunidade, que não são verbais ou físicas, mas também ambientais. E é preciso dar nome a essa violência.
Quando a água sobe, ela não escolhe teto, mas encontra primeiro quem não tem um. É fácil falar de resistência, resiliência dentro de casa, com cama, internet e comida no armário. Difícil é tentar sobreviver às margens, como o homem trans que teve que sair de casa para sobreviver ou a travesti que vive em situação de rua. De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (ANTRA), cerca de 90% das pessoas trans no Brasil não estão no mercado de trabalho, ou seja, sem emprego, sem casa, sem CEP. A rua vira abrigo e falta política pública que enxergueessas vidas como prioridade. E quando o clima muda, quem já não tem perdido mais ainda.
Faltam dados oficiais. Não tem plano emergencial. Não tem protocolo que inclua nome social, identidade de gênero ou orientação sexual quando tudo desaba. Essa ausência, somada à desumanização dos nossos corpos, não é acidental: é um projeto político. Como o governo socorre uma população que nem ao menos aparece nos censos? Como faz políticas públicas sem contagem? Sem política o que resta é o improviso e por muitas vezes a exclusão.
Não dá pra falar de justiça climática sem falar das vidas LGBTQIAPN+, principalmente das pessoas trans e pretas. Nossa exclusão dos debates, por muitas vezes dentro do próprio movimento, é uma escolha política. E isso tem consequências.
A terra arde e o vento leva, no país que, há dezasseis anos, liderou os assassinatos contra pessoas trans, é possível dizer que a crise climática também tem gênero.
Sobre o CBJC
O Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC) é uma organização nacional da sociedade civil dedicada às temáticas da população negra na agenda climática do Brasil. Nossa missão é ampliar o debate público e a influência políticas públicas de justiça climática e equidade racial a nível local, regional e nacional.
A emergência climática é uma crise de enfrentamento às desigualdades estruturais. Sabemos que o racismo é um sistema de opressão em toda a sua dimensão política e social. Portanto, discutir justiça climática é, antes de tudo, enfrentar o racismo ambiental.
Nossos principais eixos de atuação são: pesquisa e dados; educação climática; comunicação e engajamento e influência política.
