Por: Maria Clara Salvador Vieira
“E eu não sou uma mulher?” A pergunta lançada por Sojourner Truth em 1851, durante a Convenção dos Direitos das Mulheres, realizada em Akron, no estado de Ohio, atravessa gerações e continua ecoando onde quer que mulheres negras precisam reivindicar aquilo que jamais deveria lhes ser negado: humanidade, dignidade e o direito de existir plenamente. Mais de 170 anos depois, essa pergunta permanece atual. Ela ressoa em meu corpo e nos territórios das mulheres negras da Baixada Fluminense, que seguem enfrentando o racismo, o sexismo, a violência de Estado, a precarização da vida e a negação de direitos fundamentais. É nesse contexto que inicio esse texto e marchei na primeira marcha das mulheres negras da baixada fluminense: e nós, mulheres negras da Baixada Fluminense, não somos mulheres?

Queimados como Palco de Afirmação e Resistência
O município de Queimados, territory onde nasci, cresci e vivo até hoje, foi sede deste importante momento de afirmação política, mobilização e resistência das mulheres negras da Baixada Fluminense. A realização da marcha no dia 05 de Junho de 2026 representou o reconhecimento do papel fundamental dessas mulheres como protagonistas do cuidado, da organização comunitária e da transformação de seus territórios. Cresci observando as mulheres negras da Baixada ocuparem as ruas, organizarem seus coletivos, construírem redes de solidariedade e enfrentarem as múltiplas formas de violência sejam elas obstétricas, ambientais, climáticas e políticas impostas pelo racismo e pelo patriarcado.
Exercício de Memória e Reivindicação da Liberdade Coletiva
Por isso, a marcha também é, foi e sempre será um exercício de memória. É o encontro entre gerações de mulheres negras que se recusam ao apagamento e que reivindicam o fim do patriarcado, do racismo e de todas as estruturas que insistem em limitar nossas vidas. Marchar é afirmar que nossas histórias importam, que nossos corpos importam, que nossa saúde importa é que nossas vidas não podem continuar sendo tratadas como descartáveis. Caminhar ao lado dessas mulheres foi compreender, na prática, o significado da liberdade coletiva e de um projeto de sociedade que se faz através da disrupção que as mulheres negras são.
Pela primeira vez, senti que havia um espaço onde eu podia existir plenamente, sem precisar justificar minha presença. Um espaço construído por mulheres negras para que outras meninas e mulheres negras também pudessem sonhar, lutar e viver. Ao final daquele dia, a pergunta que ecoava na minha mente era a do discurso de Sojourner Truth que permanecia atravessando nossos corpos e nossos territórios.

Em busca de direitos reprodutivos, moradia, justiça climática, educação de qualidade e de todas as demandas reivindicadas na Carta-Manifesto de interesse coletivo, que celebra a existência de todas as mulheres negras da Baixada Fluminense, mas também reconhece que esse lugar de liberdade e emancipação não pode ser uma utopia distante, e sim uma realidade que construída coletivamente. Então, a pergunta ainda precisa ser feita: e nós, mulheres negras da Baixada Fluminense, não somos mulheres? Enquanto essa resposta não estiver inscrita nas políticas públicas e também na vida das mulheres negras da Baixada Fluminense, de geração em geração, continuaremos marchando.
Maria Clara Salvador da Vieira da Silva, 25 anos, é cofundadora da Coalizão O Clima é de Mudança, graduada em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisadora da obra de Carolina Maria de Jesus. Atua como Analista de Educação Climática no Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), onde desenvolve e implementa projetos de educação climática, formação política e mobilização social, com foco em mulheres, juventudes negras e populações tradicionais.
Referências Bibliográficas
HOOKS, bell. E eu não sou uma mulher? Mulheres negras e feminismo. Tradução de Bhuvi Libanio. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2019.
