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Meu começo não foi na enchente

 Bióloga do Jacarezinho narra como o trabalho invisível de sua família com a reciclagem moldou sua luta por justiça climática muito antes da tragédia.

Você já parou para pensar quando, de verdade, uma jornada começa? Onde está o seu começo, o seu meio, o seu primeiro passo silencioso?

Por muito tempo, eu acreditei que minha caminhada na justiça climática tinha nascido em 2023, quando as enchentes invadiram o Jacarezinho, território onde moro. As águas levaram móveis, sonhos e expuseram feridas abertas. Foi um marco, sem dúvida. Mas olhando a fundo, hoje sei: minha jornada começou muito antes, dentro da minha própria casa.

A história que moldou meu caminho tem raízes familiares. Eu sou Thaynara Fernandes, bióloga formada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), filha da Neuza Conceição Fernandes e Ramiz Fernandes.

Foi meu pai quem primeiro enxergou no que o mundo descartava uma chance de começar. Há mais de vinte anos, ele começou trabalhando com a coleta, enfardo e venda de garrafas PET. Aos poucos, junto com outros trabalhadores, fundou a Cooperativa Popular Amigos do Meio Ambiente – COOPAMA, um espaço onde o trabalho com recicláveis virou fonte de renda e transformação.

Minha mãe entrou nessa história pouco tempo depois. Desempregada e buscando uma alternativa para sustentar a casa, ela encontrou na desmontagem de lixo eletrônico seu novo ofício. Entre placas de computador e televisores que (achávamos)  não ter mais utilidade, ela reconstruía também o nosso dia a dia, um fio de cobre por  vez.

Foto: Acervo Cooperativa Popular Amigos do Meio Ambiente – COOPAMA RJ

A universidade é pública, mas o que sustenta a gente durante a nossa estadia lá? O que me manteve de pé durante os anos de estudo foi principalmente a reciclagem. Curiosamente, foi o que o mundo chama de “lixo” que sustentou meus estudos e a minha casa. Foi o óleo de cozinha usado, os resíduos eletrônicos. 

É irônico, não é? O mesmo resíduo que tantas vezes é apontado como vilão do meio ambiente foi, para mim, a ponte para poder lutar por ele. 

Minha casa foi minha primeira escola ambiental, e meus pais, os primeiros agentes de proteção da natureza que conheci. Invisibilizados como tantos outros catadores e cooperados do país, eles fazem um trabalho vital: diminuem a pressão sobre os recursos naturais, evitam que toneladas de lixo poluam rios e mares e ainda ajudam a mitigar a emissão de gases que aumentam as chances de o termômetro  marcar mais um grau de aquecimento. São trabalhadores essenciais, mas que seguem nas zonas de sacrifício, entre os mais impactados pelos desastres que tentam evitar, carregando nas costas o peso de uma luta coletiva.

Recentemente, vivi um momento simples e imenso que me mostrou tudo isso com clareza. Pela primeira vez, dividi um painel sobre educação ambiental com minha mãe, na ASCOM. Falamos juntas para crianças sobre resíduos, sobre cuidado, sobre o que o mundo descarta, sem perceber que é vida. Naquele instante, ao olhar para ela ali, ao meu lado, foi um ato de confirmação de onde eu vinha. Entendi que minha luta por justiça climática nasceu entre resíduos, entre gestos silenciosos de cuidado, entre a sabedoria que nem sempre os livros ensinam. Assumo, foi emocionante mesmo.

A minha caminhada não começou com uma tragédia. Começou com o trabalho invisível. Com a certeza de que lutar pelo meio ambiente é, também, lutar por quem cuida dele sem ser visto. É reconhecer que justiça climática não é só sobre salvar florestas distantes, é sobre salvar quem já protege o mundo, mesmo sem manchetes ou aplausos (mas que deveria ter).

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