FIQUE POR DENTRO

MUDAR ENQUANTO
HÁ CLIMA

Corpos em luta: Juventudes LGBTQIAPN+ e a disputa por justiça climática no Brasil da COP30

Formação do projeto “Corpos, vozes e clima” conecta crise climática, transfobia e racismo ambiental, denunciando a omissão do Estado e apontando saídas possíveis com protagonismo de jovens dissidentes

Por Danila de Jesus

Por que falar de clima é também falar de raça, gênero e território? Essa foi a pergunta que atravessou os dois primeiros encontros formativos do projeto Corpos, vozes e clima: LGBTQIAPN+ pela Justiça Climática, realizado pelo Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC).
Em um ano marcado pela expectativa em torno da COP30 — que acontecerá no Brasil — o projeto busca capacitar 80 jovens LGBTQIAPN+, especialmente pessoas negras e trans, para incidirem politicamente a partir de uma agenda climática interseccional.

Os temas das formações não deixam dúvidas sobre a urgência da pauta:

“Pessoas LGBTQIAPN+ como um dos grupos mais afetados pela crise climática”

“Transfobia e Racismo Ambiental: a justiça climática como rota de solução e adaptação dos territórios”

Mais do que introduzir conceitos, os encontros trouxeram dados, experiências e provocações que tensionam o senso comum sobre quem sofre e quem lucra, com os efeitos da emergência climática.


Educação climática: uma urgência atravessada por exclusão

Um dado da pesquisa global UNICEF-Gallup revelou que 85% dos jovens entre 15 e 24 anos já ouviram falar em mudanças climáticas, mas apenas 50% souberam defini-las corretamente. No Brasil, esse índice sobe levemente para 56%. O problema, no entanto, não é falta de interesse: é falta de acesso qualificado à informação, especialmente nas periferias e para populações LGBTQIAPN+.

Enquanto 71% dos jovens brasileiros usam as redes sociais como principal fonte de informação, as escolas públicas seguem sem estrutura para incluir educação climática no currículo de forma crítica, inclusiva e territorializada.

Essa lacuna afeta diretamente jovens LGBTQIAPN+ que já enfrentam um cenário alarmante:

  • O Brasil é, há anos, o país que mais mata pessoas trans no mundo (dados da ANTRA);
  • 72% das pessoas trans estão em situação de desemprego ou subemprego (IBGE/ANTRA);
  • A evasão escolar na comunidade LGBTQIAPN+ é agravada por bullying, violência e falta de políticas de acolhimento;
  • A ausência do Estado brasileiro, nesse contexto, não é omissão, é projeto. E a crise climática, longe de ser neutra, expõe e amplia desigualdades estruturais.

 

Justiça climática é também justiça social

Durante as formações, uma série de perguntas provocativas direcionaram o debate:

“Quem mora em áreas de risco? Quem tem casa segura? Quem pode fugir de uma enchente?”

A resposta quase sempre recai sobre os mesmos corpos: precarizados, racializados e dissidentes. No encontro sobre clima, gênero e sexualidade, a facilitadora Maria Luiza Gonçalves e Bruno Gabriel do Clima Queer, organização parceira do projeto, destacaram que sem justiça social, não há justiça climática possível. Isso significa que não basta falar em “adaptação climática” como sinônimo de infraestrutura ou tecnologia. É preciso falar de distribuição de terra, segurança alimentar, saúde pública, políticas de gênero, acolhimento e reparação histórica.

 

Racismo ambiental: o clima tem cor, classe e gênero

A formação “Transfobia e racismo ambiental”, conduzida por Jarê Pinagé, foi dedicada a explicitar como o racismo ambiental estrutura a forma como o Estado brasileiro trata (ou ignora) as pessoas trans em seus territórios. A partir do conceito apresentado por Tania Pacheco, compreendemos o racismo ambiental como uma violência sistêmica que penaliza de forma desproporcional as populações negras, indígenas e periféricas, ainda que sem intenção explícita.

Os exemplos são visíveis:

  • A falta de árvores e áreas verdes nas periferias
  • A alta incidência de enchentes e deslizamentos em favelas
  • A ausência de políticas públicas para povos tradicionais e comunidades quilombolas
  • A contaminação por agrotóxicos em territórios indígenas

 

Como adaptar territórios se eles continuam sendo destruídos ou invisibilizados?

Como falou Jarê: “Não basta sobreviver à catástrofe — queremos viver com dignidade.”

 

Transfobia, silenciamento e o apagamento de saberes dissidentes

Outro ponto alto da formação foi o debate de que transfobia e racismo não apenas produzem vulnerabilidade, mas também impedem que os saberes LGBTQIAPN+ sejam valorizados nas respostas à crise climática.

Isso tem consequências concretas:

  • Projetos comunitários liderados por pessoas trans não recebem apoio institucional
  • A produção de conhecimento feita por corpos dissidentes é deslegitimada
  • Lideranças LGBTQIAPN+ são excluídas dos espaços de decisão política

A formação reforçou a denúncia que, enquanto esses corpos forem considerados descartáveis, suas vozes continuarão sendo silenciadas, inclusive na luta por justiça ambiental.

 

O que vem pela frente

Os encontros iniciais marcaram apenas o início de um ciclo de formação política e climática. As próximas etapas aprofundarão temas como:

  • Zonas de sacrifício e barreiras institucionais enfrentadas por pessoas LGBTQIAPN+ negras
  • Cultura, festa e arte como resistência na crise climática
  • Incidência política nos poderes legislativo e executivo

 

A expectativa é que esses jovens multipliquem metodologias de um novo modelo de justiça climática: popular, antirracista, transcentrada e baseada no direito ao bem-viver.

Porque, no fim das contas, quando falamos de clima, falamos de vidas concretas. E vidas LGBTQIAPN+ importam nos dados, nas políticas, nas ruas e no futuro do planeta.


Este é o primeiro de uma série de artigos sobre o projeto Corpos, Vozes e Clima: LGBTQIAPN+ pela justiça climática”. Acompanhe os próximos textos aqui no blog e fortaleça essa luta coletiva por uma justiça climática que seja, antes de tudo, humana.

Compartilhe nas mídias:

deixe seu comentário:

nossos eixos
de atuação

Nos dedicamos exclusivamente às temáticas da população negra na agenda climática do Brasil

ÚLTIMAS NOTíCIAS:

Desenvolvido por Estúdio Puri