As mudanças do clima estão cada vez mais evidentes na vida das pessoas, inclusive na minha, jovem moradora de Queimados, Baixada Fluminense do Rio de Janeiro. As injustiças climáticas interferem diretamente no poder de compra de alimentos da minha comunidade e também da minha família, sei que manifestam fisicamente em nossos corpos por meio de ondas de calor, cada vez mais intensas. Sei que as alterações climáticas impactam apenas no meu cotidiano, mas também na vida da população negra, geralmente localizadas em territórios desprovidos de infraestrutura para suportar fortes chuvas, alagamentos e o calor extremo. Minha geração cresceu em meio a crises constantes econômicas, sociais e climáticas e isso moldou nossa forma de ver o mundo, de lutar por justiça e de reinventar o futuro e construir futuros possíveis diante do colapso climático.
A crise climática está presente no cotidiano de todas as pessoas, no entanto impacta de forma desproporcional a vida e as perspectivas da juventude global. De acordo com a Universidade de Bath, na Inglaterra, um estudo com 10 mil jovens registrou que, entre aqueles com idades entre 16 e 24 anos, 75% sentem-se ameaçados pelo futuro e 45% sofrem de ansiedade climática. No contexto brasileiro, podemos identificar algumas lacunas e questões que tendem a se intensificar. O racismo ambiental é uma delas, pois está diretamente ligado à falta de acesso a políticas públicas que refletem a exclusão social, especialmente quando serviços essenciais não alcançam a juventude brasileira, composta majoritariamente por pessoas negras.
Quando falamos de jovens LGBTQIAPN+, a situação torna-se ainda mais grave. Segundo um estudo recente do Chapin Hall, da Universidade de Chicago, jovens LGBTQIAPN+ são 120% mais propensos a viver em situação de rua do que jovens não LGBTQIAPN+. Isso os torna mais suscetíveis às violações de direitos humanos intensificadas pelas mudanças climáticas. Nesse sentido, em 2024, durante o evento “Tragédias Ambientais e o Impacto para a População LGBTI+”, realizado no G20 Social, diversas entidades ratificaram que a população trans está entre as mais atingidas por desastres ambientais.
As chuvas que atingiram o estado do Rio Grande do Sul em maio de 2024, deixando mais de 180 pessoas mortas, podem ser compreendidas como um exemplo de política que negligencia as mortes evitáveis e as naturaliza, principalmente quando afetam populações historicamente vulnerabilizadas. Relatos indicam que pessoas LGBTQIAPN+ enfrentaram preconceito nos abrigos e dificuldades no acesso a serviços públicos durante a tragédia.
Quando essas violências recaem especificamente sobre pessoas trans, pode-se falar em transfobia ambiental, um fator que impacta de forma danosa a saúde física e mental, pois pessoas fora da binaridade de gênero não conseguem acessar, mesmo em um cenário de tragédia, serviços básicos e direitos. Essa circunstância agrava as violências sofridas por este grupo, comprometendo seus projetos de vida. Para além da transfobia ambiental, a população trans negra enfrenta também os impactos do racismo ambiental. O racismo, como sistema de opressão com suas dimensões políticas e sociais, está na raiz dessas desigualdades. Portanto, discutir justiça climática é enfrentar o racismo ambiental e combater a LGBTQIAPN+fobia.
A juventude LGBTQIAPN+,ao afirmar sua própria humanidade, dedica-se a transformações sociais que tornam o mundo melhor para as pessoas. Afinal, houve um esforço do movimento negro e da comunidade LGBTQIAPN+ para que a juventude negra de hoje possa imaginar novas possibilidades, novos mundos, e associar cada pequena ação do presente à construção desses futuros possíveis. Onde quer que eu esteja, e o que quer que esteja fazendo, existe a necessidade de se sentir conectada a futuros que só são possíveis por meio da luta. Mas representatividade, por si só, já não basta, é necessário que a juventude negra em sua diversidade ocupe as mesas de decisão, e tenha instrumentos para influenciar políticas públicas, disputar narrativas e transformar estruturas sociais brasileiras, para que os futuros que o bem viver deixem de ser exceção e passem a ser regra na vida da população negra.
Mesmo com poucos recursos e visibilidade, jovens têm criado soluções comunitárias e redes de solidariedade pelo clima. São ações que mostram que a transformação parte da periferia e da comunidade negra. Se você é estudante, docente, trabalhador(a), liderança em sua comunidade, artista, sempre há maneiras de direcionar seu trabalho para uma transformação progressiva e radical, voltada ao combate às mudanças climáticas. Espero que este texto convença você — se é que ainda precisa— de que nossa sociedade necessita de uma mudança estrutural profunda. E essa mudança se constrói por meio da força e da diversidade da juventude negra brasileira.
