Por Maria Clara Salvador
Filha de pais negros, Carolina de Jesus nasceu em Sacramento, interior do estado de Minas Gerais, uma cidade que, segundo Tom Farias, em “Carolina: Uma biografia”, parecia viver resquícios do período escravista brasileiro. Localizada no Triângulo Mineiro, a cidade, assim como tantas outras no país, atravessou profundas transformações sociais com a transição do regime monárquico para a República.
Esse cenário histórico foi decisivo para a conformação de um Estado e de uma sociedade atravessados por profundas desigualdades sociais e principalmente climáticas. Para compreender o pensamento de Carolina Maria de Jesus, é necessário situá-la nesse horizonte histórico, no qual as populações negras, desde o período colonial, desempenharam papel central tanto na construção material do país quanto na formação de sua identidade cultural e nacional, embora tenham sido sistematicamente submetidas a processos de apagamento histórico.
Hoje, esse apagamento também se expressa no campo ambiental. A população negra é a mais atingida pelos desastres climáticos: enchentes, deslizamentos, ondas de calor e precariedade urbana, mas segue tendo pouca presença nos espaços de tomada de decisão e nos lugares de produção de conhecimento sobre a crise climática.
Carolina Maria de Jesus em 1963. | Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo
Celebrar o aniversário de Carolina Maria de Jesus é também reconhecer a dimensão política e social de sua obra para compreender o Brasil. A ausência de reconhecimento e valorização de suas obras como: Quarto de Despejo: Diário de uma favelada, Diário de Bitita, Casa de Alvenaria e entre outras obras da autora caminham na contramão da própria composição demográfica do Brasil. Tal apagamento revela a exclusão epistêmica que nega centralidade às experiências e às narrativas negras, especialmente aquelas produzidas por mulheres negras em contextos de marginalização social.
Quando a favela vira documento da desigualdade brasileira
No contexto urbano de São Paulo dos anos 1950, tais dinâmicas foram intensificadas pelo projeto desenvolvimentista e pelas políticas higienistas, que, sob o discurso da modernização e do progresso, promoveram a reorganização do espaço urbano por meio da remoção de favelas, da expulsão das populações pobres para áreas periféricas e da criminalização da pobreza¹. É nesse cenário que Carolina Maria de Jesus escreve Quarto de Despejo, registrando, a partir do cotidiano da favela do Canindé, os efeitos concretos dessas políticas sobre corpos racializados, sobretudo de mulheres negras.
Em seus registros no Diário, a autora faz referência recorrente às condições insalubres da favela do Canindé, seu território, marcadas pela ausência de saneamento básico, pela poluição do rio e pelos frequentes alagamentos que atingiam a favela em períodos de chuva. Carolina menciona episódios de adoecimento da população associados ao contato com a água contaminada. O território onde Carolina Maria de Jesus vivia era resultado de um acúmulo de destroços materiais e humanos da cidade, espaço onde a exclusão social se materializava na precariedade habitacional, na ausência de saneamento e nos impactos constantes das chuvas e enchentes.
Carolina integrava o contingente de sujeitos racializados cuja corporalidade, historicamente marcada, tornava-se alvo preferencial da violência exercida por agentes do Estado. As patrulhas policiais, como a autora descreve em seu diário, percorriam as vielas paulistanas, sob o discurso da “lei e da ordem”. Entretanto, operam uma justiça seletiva, que indistintamente reprimia trabalhadores e aqueles rotulados como vadios ao revelar um sistema jurídico-policial orientado não pela garantia de direitos, mas pela perseguição sistemática dos setores socialmente vulnerabilizados.
Carolina Maria de Jesus é autora de “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada” Imagem: Acervo UH/Folhapress
A literatura como ferramenta de resistência
Carolina ocupa um lugar singular e fundamental na história da literatura brasileira. Sua obra ultrapassa o caráter íntimo do diário e se transforma em um poderoso documento histórico, social e político sobre a vida nas margens da sociedade brasileira. Por meio de sua escrita, Carolina não apenas registra sua experiência como mulher negra, favelada, catadora de papel e mãe nos anos 1950. A autora lança luz sobre a ausência do Estado, o racismo estrutural e a violência cotidiana que atravessam os corpos e as vidas da população periférica.
Descontente diante das condições históricas que a marginalizaram e impulsionada pelo desejo de se inserir no campo da escrita, Carolina construiu para si o destino da linguagem e da literatura. A literatura emerge como um espaço de elaboração da dor, de reflexão e de afirmação de existência. A escrita se afirma como instrumento de elaboração das inquietações, tal como se materializa de forma emblemática em Quarto de despejo: diário de uma favelada. O diário revela os impactos da fome, da miséria e da exclusão que atingem a população negra brasileira, bem como a condição de desigualdade social à qual o Estado brasileiro historicamente submete as mulheres negras.
Ela abre caminho para a intelectualidade feminina negra e a força de sua imagem retinta aponta horizontes dentro e fora de seu tempo, na ruptura de um contrato social estabelecido de geração em geração imposto a mulheres negras. Ao transformar a vivência em escrita, dialoga com o conceito de “escrevivências²”, formulado pela escritora Conceição Evaristo. Este conceito se baseia na reescrita da história brasileira a partir das vozes de sujeitos negros historicamente silenciados.
Ao romper com normas literárias rígidas e registrar o cotidiano da favela, Carolina Maria de Jesus se torna testemunha
¹ PEREIRA, Gabriela Leandro. Quarto de Despejo: um gesto reflexivo e urgente sobre a cidade. In: MENEZES, Hélio; BARRETO, Raquel (orgs.). Carolina Maria de Jesus: Um Brasil para os brasileiros. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2023, p. 177.
² EVARISTO, Conceição. Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2005.