Escrito por Lua Braga Batista e Maria Clara Salvador
O carnaval é uma das mais potentes expressões culturais do Brasil. Nascido dos corpos negros, ele ocupa as ruas, reinventa a cidade e constrói, ano após ano, um territory de pertencimento, memória e resistência.
Mais do que festa, o carnaval é trabalho, é economia popular, é produção de vida. A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) estima que o Carnaval de 2026 vai movimentar R$18,6 bilhões apenas no mês de fevereiro. O valor representa um crescimento de 10% em comparação ao mesmo período de 2025 e, se confirmado, será o melhor resultado para o mês desde o início da série histórica, em 2011, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A crise climática na pele de quem faz a festa
No entanto, os mesmos corpos que sustentam essa celebração são também aqueles mais expostos aos efeitos da crise climática. O aumento das temperaturas, a intensificação das chuvas e a ausência de infraestrutura adequada transformam o carnaval em um espaço de risco.
O que deveria ser celebração coletiva passa a exigir resistência física extrema, sobretudo de quem trabalha na festa. Ambulantes, catadores, costureiras, passistas, músicos, carregadores, seguranças e técnicos passam horas sob sol intenso ou chuva forte, sem acesso garantido à água potável, sombra, descanso ou atendimento à saúde.
São corpos, em sua maioria negros e periféricos, historicamente expostos à precarização do trabalho e às desigualdades raciais e territoriais, para os quais a crise climática deixa de ser uma abstração e se manifesta diretamente na pele, no cansaço e no adoecimento.
Racismo ambiental e a luta por justiça climática
Essa exposição não é aleatória. No Brasil, a crise climática se soma ao racismo estrutural e à desigualdade socioeconômica, produzindo o que se reconhece como racismo ambiental.
São majoritariamente corpos negros que ocupam os trabalhos mais precarizados e menos protegidos, tanto no carnaval quanto em outras dinâmicas urbanas. Falar de carnaval, portanto, é falar de justiça climática: de quem sofre primeiro, mais intensamente e com menos suporte institucional diante das mudanças no clima.
O que a justiça climática exige no carnaval?
Justiça climática implica reconhecer que os impactos da crise não são distribuídos de forma igual. Envolve o direito à cidade, para que os espaços públicos sejam planejados para a vida e não para o adoecimento; condições dignas de trabalho, inclusive em grandes eventos populares; políticas públicas de cuidado, que garantam acesso à água, sombra, descanso e saúde; e planejamento climático com recorte racial, capaz de enfrentar as desigualdades históricas que expõem determinados corpos a riscos permanentes. Sem essas dimensões, qualquer resposta à crise climática será incompleta.
O carnaval como espaço de saber e resistência negra
O carnaval também é um espaço de saber. Ele ensina sobre coletividade, organização comunitária, ocupação do território e criação de redes de cuidado. Trata-se, sobretudo, de um espaço de produção e transmissão de saberes negros, forjados historicamente nas experiências diaspóricas de resistência, invenção e sobrevivência. Em suas formas de produção e celebração, o carnaval revela que a cultura não é um elemento acessório da vida social, mas uma infraestrutura fundamental.
Como nos lembra Lélia Gonzalez, as práticas culturais negras no Brasil constituem modos próprios de produzir conhecimento, linguagem e política, mesmo quando sistematicamente deslegitimadas pelo pensamento hegemônico. Onde há cultura viva, há vínculos, pertencimento e estratégias de sobrevivência.
Cultura é Clima
Cultura, nesse sentido, também é clima: ela molda as formas como habitamos a cidade, como compartilhamos recursos e como enfrentamos coletivamente as crises. Reconhecer o carnaval como parte da agenda climática é compreender que não haverá futuro sustentável sem justiça social e racial.
Proteger o carnaval é proteger os corpos negros que o constroem, garantindo que a festa não seja um espaço de exaustão, adoecimento ou risco de morte. Defender a justiça climática é, portanto, defender o direito de celebrar, trabalhar e existir com dignidade.
Sem justiça climática, não há carnaval.
E sem os corpos negros protegidos, não há futuro possível.